CENÁRIOS E PERSPECTIVAS DA COVID-19

O SANTUÁRIO DOS PAJÉS EM BRASÍLIA

Autores

  • Beatriz Carneiro Habbema de Maia
  • Pedro Thomé Quintão Queiroz
  • Everaldo Batista da Costa

Palavras-chave:

covid-19, indígenas, santuário dos pajés, território

Resumo

Introdução: A ampla dispersão geográfica da Covid-19 refere-se à alta transmissibilidade da infecção promovida por meios que facilitam o deslocamento de pessoas. No território, a infecção se dispersa, acometendo em especial parcelas da sociedade historicamente vulnerabilizadas no âmbito do acesso à saúde, educação e renda, situação agravada com a pandemia. Neste cenário dramático, encontram-se os povos originários do território brasileiro. O primeiro caso de Covid-19 entre os indígenas foi em março no município amazonense Santo Antônio do Içá. Desde então, os casos de infecção espalharam-se rapidamente. Dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), de 12 de setembro de 2020, apontam que 797 indígenas morreram, 31.469 infectados e 158 comunidades afetadas pela pandemia. Neste cenário, o governo mantém a política de negligência aos povos indígenas. O Ministério da Saúde e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) não desenvolveram um planejamento para combater a pandemia entre os povos indígenas. Estudo da Fundação Oswaldo Cruza, relatou que 48% de mortes por covid-19 em pacientes internados estão entre os indígenas, sendo superior à de outros estratos da população. Visando suprir o vazio institucional deixado pelo Estado, a APIB e a Conselho Indigenista Missionário (CIMI) criam planos para enfrentamento da Covid-19. Neste panorama, o Santuário dos Pajés, em Brasília, marcado por conflitos em diversos âmbitos, que se processam desde o território, envolvendo questões de ordem política e econômica que interferem na delimitação do território indígena e na determinação de seus representantes legais e espirituais, se apresenta inserida de forma desigual em um contexto no qual a pandemia da Covid-19 é uma das violências que afetam a comunidade. Objetivos: O objetivo da pesquisa busca relatar possíveis alterações nas dinâmicas da comunidade indígena do Santuário dos Pajés frente a Covid-19. Relato de experiência: Por conta da pandemia, a entrevista semiestruturada foi feita virtualmente a partir de redes sociais, as quais foram satisfatórias para obtenção de informações. A entrevista buscou delimitar a área na qual as informações aqui discutidas se aplicam – o que se justifica pela cisão entre os indígenas que habitam a área, de forma que o debate se delimita a abordar perspectivas referentes aos indígenas que são representantes do Santuário Sagrado dos Pajés. Na entrevista foram abordadas questões relacionadas: a infraestrutura de habitação – e as relações que nelas se estabelecem - e de saneamento básico; ao comportamento no ambiente doméstico referente a limpeza, higienização e contato com os parentes; ao cotidiano da comunidade, isto é, as dinâmicas internas e externas a que está envolvida; ao acesso a programas de atenção à saúde básica; ao acesso à informação e comunicação relacionadas a Covid-19; e a ocorrência ou não de casos positivos para Covid-19 na comunidade. Reflexão sobre a experiência: Apesar de toda problemática nacional, no presente estudo, encontramos uma realidade distinta. No Santuário Dos Pajés, não houve nenhum caso confirmado de Covid-19, tiveram acesso a informações difundidas nas redes digitais por parentes e instituições de apoio, como a rede APIB, possuem acesso à água potável e infraestruturas de saneamento básico. Ademais, tiveram suporte de apoiadores e professores universitários com doações de equipamentos de proteção individual (EPIs), mas não de ações estatais. Sobre o acesso à saúde da comunidade, as necessidades são atendidas através da Unidade Básica De Saúde 3 da Asa Norte e pelo Ambulatório de Saúde Indígena do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Na pandemia, o HUB criou um programa de telessaúde para os indígenas do Distrito Federal. Diferente de muitas realidades, dentre as quatro casas, duas possuem banheiros individuais para famílias, uma casa desocupada e a outra com três famílias com um único banheiro, sendo que todas têm acesso à materiais de limpeza. Além disso, os espaços comunitários, como casa de reza e ocas da comunidade, estão parcialmente inutilizadas pelos indígenas como medida preventiva. Apesar dos pontos favoráveis, o entrevistado relata que a principal fonte de renda, o artesanato, foi comprometida pelo isolamento social, uma vez que a dinâmica de visitas de apoiadores, escolas e universidades, que movimentam a economia local, ficou comprometida com o isolamento social. Além disso, os indígenas tiveram que alterar seus rituais abertos, sendo realizados com as pessoas de convívio próximo. Conclusões: O contexto relatado dos efeitos da pandemia no Santuário dos Pajés, aponta para uma situação que destoa em alguns aspectos do cenário nacional, em parte pela sua relação intrínseca a Brasília, e a organização e resistência empreendida pela comunidade. Os aspectos citados se referem a demarcação da terra indígena e a posse do território, ao acesso às infraestruturas de água e saneamento básico, às unidades de saúde na região, à informação e comunicação sobre a Covid-19.

Referências

CARVALHO, Max et al. Risco de espalhamento da COVID-19 em populações indígenas: considerações preliminares sobre vulnerabilidade geográfica e sociodemográfica. 2020.

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Publicado

21/03/2022

Como Citar

Carneiro Habbema de Maia, B., Thomé Quintão Queiroz, P., & Batista da Costa, E. (2022). CENÁRIOS E PERSPECTIVAS DA COVID-19: O SANTUÁRIO DOS PAJÉS EM BRASÍLIA. I SIMPÓSIO DO GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM SAÚDE INDÍGENA DA UEMS, 1(1). Recuperado de https://anaisonline.uems.br/index.php/gepsi/article/view/8004